Medida de Trump com clã Bolsonaro é para que o Brasil se submeta aos interesses dos EUA, diz especialista

Flávio Bolsonaro (PL-RJ), envolto a investigações de aliados e dele próprio em casos como Refit e Master, pode ter dado um tiro no pé com a medida, que, em tese, atingiria aliados do grupo político que comanda.

– Paulo Figueiredo, Flávio e Eduardo Bolsonaro com Donald Trump (Divulgação)

Por Plínio Teodoro/Revista Fórum

Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Renatho Costa, autor do livro “Os aiatolás e o receio da República Islâmica do Irã”, Renatho Costa estudou a fundo os achaques dos EUA em sua “guerra ao terror”, especialmente no Oriente Médio, e crê que mais que ação militar, a medida de classificar Comando Vermelho e Primeiro Comanda da Capital (PCC) como organizações terroristas, tomada em conluio com o clã Bolsonaro, foi tomada sobretudo para que o governo brasileiro se submeta aos interesses de Donald Trump.

“O que a gente pode perceber disso é a pressão que o governo brasileiro vai passar a sofrer. Ou seja, esse tipo de classificação vai servir como pressão para que o governo brasileiro se submeta aos interesses dos Estados Unidos, mais do que efetivamente um risco de uma ação”, afirmou Costa à Fórum.

Segundo ele, essa é a grande mudança que deve haver nas relações entre Lula e Trump, que vinham sendo amistosas até então.

O especialista lembra como o Conselho de Segurança da ONU abriu a brecha para que os EUA agissem como uma “polícia” do mundo, classificando organizações criminosas como “terroristas” para interferir em questões internas dos países.

“Essa classificação que os Estados Unidos atribuem ao PCC e ao Comando Vermelho de Organizações Terroristas Globais é preocupante pelo seguinte: apesar de não haver um consenso sobre uma legislação em que atribua o direito de um Estado intervir no outro militarmente, ainda que esse tenha alguma organização terrorista atuando em seu território, o que a gente tem visto é que depois do 11 de setembro e com a aprovação da Resolução do Conselho de Segurança, que permitiu que os Estados Unidos atacassem o Afeganistão na tentativa de anular os atos da Al-Qaeda. o que acontece é que o governo dos Estados Unidos lança a mão do entendimento de que essa resolução teria um efeito expansivo, ou seja, qualquer outra organização terrorista no mundo que, por ventura, for considerada como um risco para os Estados Unidos, para a soberania dos estadunidenses, ela estaria passível de ser enfrentada, inclusive, com atuações, com atuação de forças militares. Em tese, funcionaria dessa maneira”, explica.

No entanto, Costa vê dificuldades de ações militares no Brasil contra o PCC e CV.

“Na prática, não sei se seria tão simples, porque como seria uma ação militar dentro do Estado brasileiro contra um PCC, contra um comando vermelho? Seria, pelo menos nos padrões que a gente conhece, praticamente inviável”, diz.

Direita se lambuza com dinheiro de bancos

Na rede X, o advogado André Matheus, afirmou que “não há ninguém sério, no mundo jurídico, na esfera militar ou entre os profissionais de segurança, que concorde com essa iniciativa dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas”.

“Todos sabem que os EUA vivem em uma permanente “guerra ao terror” e que esse rótulo funciona, na prática, como um mote para legitimar intervenções em outros países, inclusive no Brasil”, afirmou, em linha com Costa.

Segundo o advogado, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), envolto a investigações de aliados e dele próprio em casos como Refit e Master, teria dado um tiro no pé com a medida, que, em tese, atingiria aliados do grupo político que comanda.

“Há um enorme tiro no pé para setores da própria extrema direita que se lambuzam com dinheiro de bancos e de grandes instituições financeiras, inclusive por vias que podem se cruzar com esquemas de lavagem associados ao PCC e a outras facções. Se os EUA passam a rotular o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas globais, qualquer fluxo financeiro conectado a essas redes pode levar também à classificação de indivíduos, empresas e grupos políticos como apoiadores do terrorismo, com risco de sanções e bloqueios patrimoniais”, diz.

“Portanto, não há nada de sério ou de genuinamente cooperativo nessa decisão; trata‑se de uma medida que amplia o poder de intervenção dos EUA e cria um enquadramento jurídico-político extremamente perigoso para a soberania brasileira. E é importante lembrar que muitas pessoas e instituições que combatem duramente o PCC e o Comando Vermelho também são contra essa classificação como terrorismo, justamente porque ela desloca o problema do campo da segurança pública e da justiça criminal para o campo da guerra e da intervenção externa, com todas as consequências que isso implica”, emenda.

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