Na justa homenagem faltou alguém dizer algo sobre a vida da homenageada; Conceiçãozinha, parteira por vocação

Por não ser de Araioses o “mestre-de-cerimônias” se limitou a falar o nome das autoridades e convidados presentes ao importante evento

Conceiçãozinha – Foto: reprodução

Dar o nome da enfermeira e parteira Maria da Conceição Aurifrance França, ao Centro de Imagens e Diagnóstico de Araioses inaugurado dia 4 de julho, foi uma homenagem justíssima. Sem querer desmerecer ninguém a mais justa de todas já posta em órgão público na cidade.

Porém esse fato não chegou ao conhecimento das muitas pessoas presentes a inauguração, que ficaram sem saber quem era a homenageada, já que ela era conhecida em Araioses apenas conhecida por Conceiçãozinha.

Foi uma falha do cerimonial que não passou as informações para o “mestre-de-cerimônias” que por não ser de Araioses se limitou a apresentar – para discursar – o nome das autoridades e convidados presentes.

E não foi por falta de informação sobre a heroica vida de Conceiçãozinha a serviço de muitos em Araioses, principalmente as mulheres gestantes. Alessandra Freitas, secretária de Saúde de Araioses tinha um longo relato – o mesmo posto abaixo – em fala inclusive do primeiro parto que ela fez, quando tinha apenas 13 anos de idade.

No dia da inauguração gente que conhecia mui Conceiçãozinha não sabia que o nome dado ao centro de imagens e diagnóstico era o dela.

Para que todos saibam – o que deveria ter sido dito naquela data – abaixo publico um relato que diz muito sobre a vida de Conceiçãozinha.

Conceiçãozinha, parteira por vocação

Maria da Conceição Aurifrance França, a Conceiçãozinha nasceu no dia 29 de abril de 1958, no povoado Rebentão – povoado da zona rural de Buriti dos Lopes no Piauí. Naquela localidade em 1971, com apenas 13 anos de idade ela inicia suas atividades como parteira, função que exerceu por mais de três décadas.

A primeira criança que Conceiçãozinha ajudou a nascer foi Penha, sua irmã caçula fato narrado a esse repórter por sua mãe, a dona Maria.

Segundo disse, ela já estava três dias em trabalho de parto sem que a criança nascesse. Morava em Rebentão – zona rural de Buriti dos Lopes e naqueles tempos nesses lugares às mães tinham seus filhos em casa com ajuda de parteiras.

Dona Maria tinha três parteiras lhe acompanhando e tudo se encaminhava para um triste desenlace, pois a criança estava “atravessada” e nesses casos dificilmente as mães escapavam e acabavam morrendo de parto. Esse era o termo que simplificava a falta de assistência médica, que na zona rural não existia.

Dona Maria disse ainda, que nesse momento Conceiçãozinha entre no quarto e diz que quer ficar sozinha com ela.

As parteiras saíram achando que ela queria ficar com sua mãe antes que ela viesse a óbito. Em seguida ela passa as mãozinhas na sua barriga e que em seguida ela sente a criança se retorcer para em seguida nascer.

Logo a seguir, ainda adolescente, Conceiçãozinha veio morar no povoado Santa Rosa seguindo, pouco tempo depois para João Peres, ambas as comunidades no município de Araioses.

A fama de parteira de Conceiçãozinha chegou ao conhecimento de muitas futuras mamães em Araioses. Ela não só pegava as crianças como antes, as que moravam mais próximo ela acompanhava numa espécie de pré-natal.

Seu primeiro emprego foi no posto de saúde do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Araioses (STTR) no final da década de 1970, dirigido na época por Raimundo Nonato Loiola Coutinho, que também exerceu o cargo de vereador.

Conceiçãozinha não era formada, mas ela fazia de tudo que era possível no posto de saúde do sindicado, como aplicação de injeções, pequenas cirurgias, curativos e a indicação de remédios como as vitaminas e os vermicidas.

Naqueles tempos médico era artigo de luxo em Araioses e a cidade nesse período (década de 1980) só contava com um profissional, que nem todos os dias estava na cidade.

Durante o dia ela trabalhava do posto de saúde do sindicato, porém isso não queria dizer que seu expediente estava terminado, pois em sua humilde casa situada na Rua Mariana Cardoso – bairro Nova Conceição ela continuava suas atividades muitas das vezes durante toda a noite.

A procura por atendimento em sua casa era tanto que Zé de Riba, que veio a ser em seguida o dirigente do STTR fez um acordo com ela para que desse expediente em casa mesmo.

Araioses vivia momentos muito difíceis em todas as áreas e na saúde não era diferente. Como muitas mães vinham da zona rural de Araioses, essas ficavam alguns dias na casa de Conceiçãozinha se recuperando do parto para poder retornar para suas casas.

Há relatos de que tinha dia dela ter oito mães em sua casa e de que teve ocasião dela fazer até quatro partos por dia.

Essa situação começou a diminuir a partir da maior presença de médicos nos Hospital do Município e do Hospital Regional, que foi inaugurado na década de 1990, onde Conceiçãozinha trabalhou por vários anos.

Em que pese toda essa dedicação pelos outros, Conceiçãozinha se foi muito cedo com menos de 54 anos, vítima de um câncer que apesar da longa batalha de por vários anos, não foi possível vencê-lo.

Impossível dizer quantas crianças Conceiçãozinha ajudou a vim a esse mundo, mas foi seguramente de vários milhares. Ela costumava anotar em um caderno os nascimentos, porém dizem que ela teria perdido a conta próximo de completar 5 mil bebês.

Com Manoel Justino de França seu primeiro marido o único filho morreu antes de nascer. Com isso adotou e criou Marinete sua uma sobrinha, que hoje já é avó.

Ficou viúva muito cedo, mas só anos depois se casou novamente, dessa vez com José de Ribamar Nascimento Rodrigues com quem teve um casal de filhos. Samira Rute e José Elias. Os dois também lhe deram netos.

Muitas das mães que tiveram seus filhos com ajuda de Conceiçãozinha deram seus filhos para ela ser madrinha e com isso ninguém em Araioses teve mais afilhados do que ela.

É muito justa a homenagem que lhe foi feita ao dar seu nome ao centro de imagens de Araioses.

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