Guerra na Ucrânia: informação fidedigna e análise objetiva não combinam com preconceito e cacofonia

“A propaganda imperialista pôs a seu serviço uma cobertura ideológica sobre a queda do muro de Berlim. Faz o mesmo na Ucrânia”, escreve o editor José Reinaldo

Presidentes Volodymyr Zelensky (Ucrânia), Vladimir Putin (Rússia) e a região insurreta de Donetsk (Foto: Reuters)

José Reinaldo Carvalho, Brasil 247 – “Se você não conhece as causas profundas do conflito, a paz é uma palavra de ordem vazia”, afirmou a ex-presidente Dilma Rousseff, em histórica entrevista à TV 247 no último sábado, em que mais uma vez revelou sua estatura de estadista. Suas opiniões, estudadas, ponderadas, amadurecidas, bem que podiam inspirar aqueles que, ao opinarem sobre o conflito em curso no Leste Europeu, incorrem involuntariamente, talvez, no erro mais grave de quem labuta no jornalismo: a desinformação e a difusão de notícias falsas, base para uma agitação e propaganda fanáticas.

É absolutamente natural que se adotem critérios de análise a partir de concepções filosóficas e geopolíticas distintas. Alguém pode ser realista ou idealista e dar o melhor de si à causa a que dedicam suas vidas. Mas há um certo tipo de jornalismo que exibe sem disfarces o propósito de servir aos quartéis-generais que movem os cordéis dos governos, academias e veículos de comunicação, cujos princípios nada têm a ver com a ética, porquanto são mestres em desinformação, cacofonia e preconceito.

Há posições políticas sobre o conflito em curso na Europa Oriental que são expendidas a partir da contextualização correta, partem do curso da vida, transmitem um fio de coerência histórica porque se baseiam no elementar princípio de que a verdade está nos fatos. Há outras, entretanto, preconceituosas, que vêm de par com os interesses de domínio do mundo por uma superpotência genocida, os Estados Unidos.

O anticomunismo ideológico, que fez escola na mídia em todas as latitudes, foi uma arma dessa superpotência. Poderes forte e “brando” foram um combo eficazmente utilizado pela Casa Branca, o Pentágono, o Departamento de Estado, agências de cooperação, academia e conglomerado midiático durante a guerra fria. Deu algum resultado porque fez surgir no mundo uma legião numerosíssima de repetidores de chavões. O resultado mais caricato do anticomunismo na mídia foi a cobertura “jornalística” sobre a queda do muro de Berlim. Juntaram às armas das “revoluções de veludo” uma espécie de jesuitismo em que campeavam a mentira, a calúnia, a intriga. Textos que, tout court, exibiam fanatismo anticomunista, encobertos por cândidos discursos em “defesa da democracia”, embaindo ingênuas consciências e fracos corações.

Guardo na memória não só a intensidade das imagens daquela contrarrevolução que levou de vencidas Berlim, Moscou, Bucareste, Praga, Tirana, Budapeste, Varsóvia, entre outras, tanto quanto das bombas que uma década depois arrasaram Belgrado, também com a cumplicidade do jornalismo oficial da política de guerra dos EUA, Otan e União Europeia.

Tudo isso fez parte de um cenário que levou pouco depois o ex-presidente Bush, pai, a dar com as mãos postas aos céus “graças a deus” por ter-lhe ungido com o privilégio de destruir o império soviético do mal. O século seguinte assistiu ao corolário desta patranha – a destruição do Iraque e da Líbia, em que não faltaram magnicídios.

Hoje, também invocando imagens e conceitos anticomunistas, atribuem à Rússia o propósito de desencadear a terceira guerra mundial, que “começou com a invasão da Ucrânia”, avançará com a tomada pelo “autocrata do Kremlin” do antigo Leste Europeu socialista e chegará até a reconstrução do “império soviético”.

Por serem fruto de imaginação fantasiosa, repito, eivada de anticomunismo, essas opiniões não passam de fanatismo e como tal laboram no erro da desinformação. Quanto ao Brasil 247, seguiremos com o nosso combo: informação fidedigna e análise objetiva, contextualizada, sem chavões nem preconceitos.

O conflito em curso na Europa Oriental não começou em 24 de fevereiro, nem foi insuflado pelo reconhecimento da independência das repúblicas populares de Donetsk e Lugansk. As primeiras ações conducentes às tensões atuais datam da década de 1990, quando os Estados Unidos iniciaram o cerco à  Rússia. As ações seguintes cifraram-se no golpe anti-Rússia de 2014, realizado na Ucrânia por forças fascistas, sob comando das embaixadas dos EUA e da União Europeia em Kiev. Os massacres pelo governo de Kiev nas duas províncias do Donbass foram o corolário destas ações. O ponto culminante foram as manobras militares conjuntas dos EUA/Otan com a Ucrânia, com imensa concentração de tropas nesse país no ano passado e a confirmação de que, sim, a Aliança Atlântica pretendia incorporá-lo como um de seus membros.

Agora o mundo está diante de fatos consumados, um conflito que se agrava, diante do qual os movimentos políticos e sociais partidários da paz deviam, ao invés de se perder na cacofonia anticomunista e em previsões escatológicas sobre o fantasioso novo império soviético, ajudar na busca de uma saída diplomática, que implica dar garantias totais à Rússia de que a Ucrânia não integrará a Otan e se tornará um país neutro e desmilitarizado. Esta seria uma garantia forte que resultaria no cessar-fogo e na retirada das tropas russas do território ucraniano.

Quanto ao bom jornalismo e às forças da paz, é necessário dar ênfase à noção de que a origem deste conflito radica na estratégia agressiva dos EUA e da Otan contra a Rússia. E à compreensão de que todas as ações empreendidas pelo Kremlin desde o final do ano passado até agora foram uma reação diplomática, política e agora militar a esse cerco.. “Sempre seguimos o diálogo, mas as portas foram fechadas”!, disse a chancelaria russa antes do desencadeamento da operação militar de 24 de fevereiro. Foram os EUA e a Otan que fixaram o ponto de não retorno.

A emergência de um mundo unipolar é um fenômeno objetivo que percorrerá toda uma etapa histórica, em que se alternarão conflitos geopolíticos e ações das forças progressistas por conquistas de cariz progressista. As alianças militares agressivas, como a Otan, e o jesuitismo na agitação e propaganda das forças declinantes na história já não terão tanta serventia.

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