Ibama encontra 333 litros de óleo e notifica Vale e Polaris sobre navio encalhado na costa do MA

Óleo saiu do porão do navio. Polaris afirma não crer que o vazamento seja dos tanques de combustível, que estão intactos.

Navio Stellar Banner segue encalhado no Oceano Atlântico, próximo ao Maranhão — Foto: Ibama

Por Rafael Cardoso, G1 MA — São Luís

O Ibama informou nesta sexta (28) que o volume de óleo visualizado nas proximidades do navio Stellar Banner é estimado em 333 litros e que o poluente se espalhou por uma área de 0,79 km². A embarcação segue encalhada a cerca de 100 km da costa do Maranhão.

A estimativa da quantidade de óleo foi calculada a partir de dados obtidos pelos sensores de detecção de óleo da aeronave Poseidon, que sobrevoou o local. Ainda segundo o Ibama, o óleo saiu do porão da embarcação e solicitou aos responsáveis pela contenção da emergência que realizem a dispersão mecânica do resíduo.

Mancha de óleo encontrado ao redor do navio Stellar Banner, encalhado na costa do Maranhão — Foto: Ibama

A empresa Polaris, proprietária do navio, disse acreditar que o óleo observado seja de um “óleo morto” que estava no convés, não vazamento dos tanques de combustível, que estão intactos.

A empresa afirmou ainda que está mobilizando todos os ativos disponíveis no Brasil para erradicar qualquer risco potencial de derramamento de óleo, e que uma equipe antipoluição está no local, monitorando de perto a situação.

Notificações

O Ibama também declarou nesta sexta que vai notificar a Polaris (proprietária da embarcação) e a Vale (que abasteceu o navio). As notificações exigem:

  • Apresentação de especificação, volume e condição de armazenamento de todos os tipos de óleo a bordo do navio.
  • Informação sobre quantidade de tanques e o volume atual de óleo em cada tanque de combustível.
  • Informação que permita saber se todos os tanques se encontram estanques. Caso contrário, informar quais não estão e por que motivo.
  • Apresentação de especificação, volume e condição de armazenamento de outras substâncias nocivas ou perigosas a bordo da embarcação.
  • Contato da empresa de resposta responsável por atendimento a eventuais derramamentos de produtos perigosos.
  • Contato da empresa de salvatagem.
  • Especificação e possível origem da substância que já saiu do navio para o meio ambiente e estimativa de volume.
  • Informações sobre data, horário e conteúdo de possíveis comunicados de acidente ambiental aos órgãos ambientais competentes.

As empresas terão um dia de prazo para atender às exigências após o recebimento da notificação. O G1 entrou em contato com a Polaris e a Vale sobre as notificações, mas ainda não obteve retorno até a última atualização desta retortagem.

Riscos

A Marinha e o Ibama ainda não descartam o risco vazamentos no navio. Atualmente, a embarcação segue encalhada e com cerca de 290 mil toneladas de minério de ferro, além de quatro milhões de litros de combustível e óleo. Se houver vazamento, todo o material pode se espalhar pelo litoral.

“O ideal é que se façam estudos que tenham com precisão os reais riscos da embarcação. Mas, independente disso, são tomadas todas as providências de forma preventiva. Então nós já temos um estudo de modelagem, para onde esse óleo pode bater, chegar na costa, caso venha a acontecer um incidente. E já deixar disponível os equipamentos de proteção a essas áreas sensíveis”, afirmou Marcelo Amorim, coordenador de atendimento de emergência ecológica do Ibama.

Nesta sexta (28), o comandante da Capitania dos Portos, Alekson Porto, concedeu entrevista. Ele disse que técnicos avaliam se ainda vai ser possível recuperar o navio ou se a carga e o óleo serão retirados.

“A nossa preocupação primeiro é entrar no navio e mapear qual é o dano. A segunda preocupação é retirar o óleo presente na embarcação. A terceira é fazer o plano de salvatagem para retirar aquela embarcação de lá”, disse o comandante.

Sobre o risco de naufrágio, a Marinha afirmou que o risco é pequeno, mas não é impossível. Há, atualmente, quatro rebocadores na região para agir em caso de emergência.

“É muito cedo poder dizer alguma coisa. Ela [Polaris] vem acompanhando e empregando dois navios do 4ª Distrito Naval de São Luís, um com previsão de chegada nas próximas 24h e outro no sábado (29). Hoje nós temos uma aeronave no local, que se apresentou a cena de ação e está com o nosso chefe do gabinete de crise. Hoje a embarcação está encalhada, na região não tem profundidade suficiente para cobrir a embarcação”, disse o comandante Alekson Porto no dia 27.

Proprietária do navio tem histórico ruim

O navio Stellar Banner é de propriedade da empresa sul-coreana Polaris Shipping. Essa empresa é a mesma responsável pelo Stellar Daisy, embarcação que naufragou no Oceano Atlântico em 2017 após ter sido carregado no Terminal Marítimo da Ilha de Guaíba que pertence a mineradora, na Ilha de Guaíba, no Rio de Janeiro.

Navio Stellar Daisy naufragou no Oceano Atlântico com 260 mil toneladas de minério de ferro da Vale. — Foto: Reprodução/Ciberia

A embarcação foi carregada em 25 de março com 260 mil toneladas de minério de ferro e tinha como destino final a China. A bordo do Stellar Daisy estavam 24 tripulantes, entre filipinos e coreanos. De acordo com a Marinha do Uruguai, uma chamada de emergência foi realizada seis dias após o navio ter saído do Brasil, a cerca de 3.700 km do porto de Montevidéu, no Uruguai.

Destroços do Stellar Daisy foram encontrados pela empresa de exploração americana Ocean Infinity, dois anos após o naufrágio. — Foto: Reprodução/Korea’s Ministry of Maritime Affairs and Fisheries and Ocean Infinity

Na época, foi relatado às autoridades brasileiras que ventava muito no momento do acidente e que a água do mar havia invadido a embarcação. Apenas dois tripulantes de nacionalidade filipina foram encontrados em um bote salva-vidas um dia após o acidente, e foram resgatados pela Marinha do Uruguai. Os corpos das outras 22 pessoas não foram encontrados.

A empresa americana de exploração marítima Ocean Infinity foi contratada em 2019, pelo governo da Coreia do Sul, para realizar a busca pelos destroços do Stellar Daisy, quase dois anos após o naufrágio. O navio foi encontrado 72 horas após o inicio das operações, a 1,300 km no fundo sul do Oceano Atlântico, a oeste da Cidade do Cabo, na África do Sul.

Stellar Eagle, da empresa Polaris Shipping, foi retido em porto da China após terem encontrados irregularidades em inspeção. — Foto: Patrick Lawson/Marine Traffic

Um ano após o naufrágio do Stellar Daisy, a Polaris Shipping foi notificada pelo Ministério de Assuntos Marítimos da Coreia do Sul após terem encontrado 22 mudanças não autorizadas no navio Stellar Eagle, com bandeira das Ilhas Marshall, durante uma inspeção de segurança no porto de Rizhao, na China. O navio não foi autorizado a sair do porto até os itens de segurança estivessem dentro dos padrões.

Ao G1, a Polaris Shipping informou que o caso do navio Stellar Daisy está sendo discutido nas esferas pertinentes e a causa do naufrágio ainda é indeterminada. Desde então, todos os navios tipo VLOCs (Very Large Ore Carrier) passaram por inspeções especiais por sociedades de dupla classificação e receberam certificados que comprovam a navegabilidade. Além disso, a empresa lamentou a perda dos 22 tripulantes do navio. Para a empresa, o caso do Stellar Banner é um incidente separado e tem registros limpos.

Buracos na estrutura do Stellar Banner

O navio Stellar Banner tem capacidade para 300 mil toneladas de minério de ferro e possui 340 metros de comprimento, o equivalente a quase quatro campos de futebol. A embarcação foi abastecida pela Vale e saiu do Terminal Portuário da Ponta da Madeira, em São Luís, com destino a um comprador em Qingdao, na China.

Ponto em verde aponta o local onde o navio está encalhado — Foto: Reprodução/MarineTraffic

Segundo a Capitania dos Portos, o navio apresentou ao menos dois locais com entrada de água nos compartimentos de carga por volta das 21h30 desta terça (25) e começou a afundar no Oceano Atlântico. Uma fissura no casco pode ter sido a causa.

Navio Stellar Banner carregado de minério de ferro sofre possível fissura no casco no meio do Oceano Atlântico — Foto: Divulgação

O comandante do navio emitiu um alerta de emergência via satélite e levou a embarcação para um banco de areia. Equipes da Capitania dos Portos e da Vale foram encaminhadas para o local e cerca de 20 tripulantes foram evacuados para os rebocadores que estão ao redor do navio.

Navio Stellar Banner sofre fissura no casco no meio do Oceano Atlântico — Foto: Divulgação

A empresa Polaris Shipping, proprietária do navio, informou que todos os membros da tripulação estão seguros e que está realizando inspeções para evitar maiores danos.

“Como resultado do incidente, alguns tanques de água e espaços vazios sofreram danos, embora a extensão dos danos ainda deva ser estabelecida. Acredita-se que os porões de carga estejam intactos e a situação está sob controle. Com o intuito de melhor mensurar os danos e garantir a segurança, a embarcação foi movida para uma área mais segura. Inspeções serão realizadas por especialistas e uma empresa de resgate foi acionada”, diz a nota.

Navio Stellar Banner — Foto: Rik Van Marie

Já a Vale informou em nota que está atuando no caso com suporte técnico e que colabora para mitigar possíveis impactos causados pelo incidente com o navio MV Stellar Banner. A empresa afirmou ainda que dois navios Oil Spill Recovery Vessel (OSRV), cedidos pela Petrobras para contenção de eventual vazamento de óleo, iniciaram navegação na noite desta quinta-feira (27). A previsão é que cheguem ao local do incidente neste sábado (29).

Por fim, a empresa disse que contratou especialistas em salvatagem, adicionalmente à empresa contratada pela Polaris, para apoiar o plano de retirada do óleo da embarcação; e que disponibilizou helicópteros para a movimentação de pessoal até o local.

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