Quixotes e quixotesas

Por Fernando Brito, editor do TIJOLAÇO

Confesso que, apesar do prazer de analisar e escrever o que penso, dá um desânimo danado em cuidar do dia a dia da política no Brasil.

Acontecimentos que seriam dramáticos em qualquer país com um mínimo de normalidade institucional, aqui, viram banalidades, que não merecem interesse mais profundo da imprensa e de seus analistas.

Não estou sendo dramático, não. Convenha, chegamos a um quadro em que olhar para o cotidiano é um exercício de resistência à repugnância que, porém, não pode fazer com que achemos normal a monstruosidade medíocre em que se converteu a vida pública brasileira.

É banal que um presidente de extrema-direita se eleja e, antes de se completarem 11 meses, sai do partido pelo qual se elegeu e anuncia que vai montar uma agremiação de cunho familiar, presidida pelo filho metido num escândalo de rachadinhas e milícias e liderada pelo ex-futuro embaixador que deseja a volta do AI-5?

Como encarar o fato de um presidente dizer que “casou errado” com seu vice, flerta com um sujeito que se autodenomina príncipe – pois não há nobreza a dar-lhe este título -, enquanto este é atingido por uma história sórdida de ter sido “queimado” politicamente por fotos de uma suposta suruba gay, invadindo a sua vida privada, a única sobre a qual ele deve ter poder imperial? E a isso, o ex-ministro chefe do Governo desafia o chefe da Nação a um teste de polígrafo, o popular detetor de mentiras?

Não, não é uma piada, é uma torpeza.

É certo que os direitos sociais e o progresso econômico construídos ao longo de um século de História sejam desmanchados em meses, por simples decretos e sob os aplausos de uma classe dominante que, em sentido nada amoroso, gostaria de entoar a marchinha do “ai, meu deus que bom seria, se voltasse a escravidão”?

A verdade é que, como dizia Cartola, quando a gente entra no “inverno do tempo da vida”, embora se possa contentar com uma espécie de autofelicidade, fruto de sua trajetória e dos seus próximos, dói ver seu país tomado por esta mediocridade boçal e violenta, para a qual regredimos com tanta rapidez e da qual só nos curaremos lentamente.

Nem mesmo consola olhar para fora, pois se vê os pobres, de todas as cores e de todos os pobres tornarem-se os “judeus do século 21”

O fato é, porém, que esta é a realidade e de nada terá valido ter sido de uma geração que amou reconstruir a liberdade e o convívio se, a esta altura, não estivermos dispostos, com todas as dores e canseiras, a recolher seus cacos e de novo soldá-los ao ambiente social, não apenas às nossas vidas pequeninas.

Anos atrás, em algum lugar, escrevi que o que nos faz vivos, a qualquer ser, é a capacidade de absorver e sintetizar. Enquanto pudermos fazer isso, poderemos olhar para o futuro. Mas se criarmos uma crosta que não permita mais, como à cigarra, trocar de casca sem deixar de cantar o verão, aí, o inverno terá vencido e a espécie humana será fria, insensível, antissocial e, por isso mesmo, já não merecerá o nome de humanidade.

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