OPINIÃO – Falta rebeldia ao futebol brasileiro

Robson Paz – Nos gramados a Seleção Brasileira vai muito bem, obrigado. Contraditoriamente é inversamente proporcional o comportamento da torcida brasileira, cuja apatia nem de longe demonstra a paixão nacional pelo esporte.

Qual a explicação? A crise econômica, política e institucional explica em certa medida a baixa estima da torcida canarinho. A bola murcha é constatada em pesquisas. O Instituto Paraná mostra que 65% da população não estão nada interessados ou têm muito pouco interesse na Copa do Mundo. De acordo com o Datafolha, 41% estão desinteressados pela competição. Dez pontos percentuais a mais em relação a 2010.

Mas, se é verdade que a crise reflete diretamente o desinteresse popular, não menos verdadeira é a falta de rebeldia dos ídolos fora das quatro linhas. O silêncio sobre os problemas do país é tão frustrante quanto ser goleado por 7 a 1 em casa, com estádio lotado.

Muito diferente de outras épocas. Craques do futebol nacional já protagonizaram movimentos políticos como a Democracia Corintiana, liderada pelo doutor Sócrates, que revolucionou o ambiente futebolístico e contribuiu no processo de redemocratização do país na ‘Diretas Já’, década de 80.

Antes, no ápice da ditadura militar o atacante da Seleção e do Atlético Mineiro Reinaldo protestava em plena Copa do Mundo, em 1978, contra o regime opressor. Ao fazer gol, Reinaldo comemorou erguendo o braço com punho fechado. “Era um gesto socialista, em protesto pelo fim da ditadura”, conta o ex-craque.

Os generais daquele tempo usavam o futebol como meio para aplacar os ânimos contra a ditadura com discursos ufanistas. Ao cumprimentar Reinaldo, Ernesto Geisel teria transmitido a ordem: “Vai jogar bola, garoto. Deixa que política a gente faz”.

Opressão que parece dominar o meio futebolístico nacional. O que explicaria a inércia diante de escândalos de corrupção envolvendo a cúpula do futebol brasileiro com denúncias de propinas? Em recente relato do livro publicado na Europa, o ex-presidente da Fifa Joseph Blatter discorre sobre bastidores do caso de corrupção envolvendo ex-dirigentes da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e parte da grande mídia. Segundo ele, dinheiro de uma emissora brasileira de TV teria sido desviado para a criação de uma “caixa-preta” no futebol.

O máximo que se ouve de jogadores da Seleção é o surrado chavão de que a conquista da Copa é uma forma de propiciar alegria à sofrida população. Discurso um tanto desconectado da realidade.

Na ausência de vozes do futebol nacional, coube ao ex-craque argentino Diego Maradona atacar publicamente o golpe, que retirou do poder a ex-presidenta Dilma Rousseff, cassada injustamente, e a prisão arbitrária do ex-presidente Lula.

Sobram bons exemplos de atletas que utilizaram o esporte como instrumento para transmitir mensagens essenciais para organização da sociedade. O craque africano Didier Drogba, ex-atacante da Costa do Marfim, liderou o processo de pacificação do país, após quase dez anos sob guerra civil.

Torçamos por nossa Seleção para que seja uma vez mais vitoriosa em campo e inspire nossos craques à prática da consciência política e à rebeldia de outrora. Tenhamos fé no Brasil!

Robson Paz – Radialista, jornalista, Secretário adjunto de Comunicação Social e diretor-geral da Nova 1290 Timbira AM.

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